O Professor Catedrático Gonçalo Vilas-Boas na Faculdade de Letras da Universidade do Porto é um dos maiores conhecedores da literatura nórdica. Além de ser o Presidente do Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa, e professor da língua alemã e literatura comparativa, ele foi também o editor duma antologia de contos nórdicos A luz que vem do Norte.
KNUT HAMSUN E A LITERATURA NORUEGUESA PUBLICADA EM PORTUGAL
Comemoram-se os 150 anos do nascimento de Knut Hamsun (1859-1952). Por todo o mundo acontecimentos culturais marcam a efeméride. Estas servem para relembrar, tornar o autor objecto de atenção do mundo leitor, mergulhado em miríades de títulos e autores.
A recepção de tem de ser vista dentro dos contextos editoriais portugueses, que por sua vez se integram essencialmente nos contextos europeus da edição.
Em Portugal, a política de publicação de obras de autores de línguas menos faladas passou por diferentes fases. Relativamente às literaturas escandinavas pode dizer-se que entraram em Portugal por via indirecta, isto é, as traduções portuguesas baseavam-se essencialmente nas traduções inglesas ou francesas. Ainda hoje os editores recorrem a traduções para conhecerem as obras, apesar de se tentar cada vez mais traduzir a partir dos originais. Felizmente que, neste ponto, a qualidade das traduções melhorou significativamente, em parte também porque o mercado se tornou mais rigoroso. A política de escolha de autores depende das políticas editoriais. Outras vezes a escolha tem a ver com informações/sugestões de leitores conhecidos ou através de contactos em feiras de livros, especialmente na de Frankfurt. A Editora Cavalo de Ferro é uma das poucas que tem como política editorial a publicação de traduções de qualidade de literaturas menos conhecidas. Se olharmos para trás, vemos nomes de editoras com fortes programas com traduções da literatura universal, como a Inquérito, a Editorial Minerva, a Guimarães, os Estúdios Cor, a Portugália, a Civilização, a Estampa, os Livros do Brasil, a Europa-América, a Editorial Presença, só para citar algumas, umas que já não estão no mercado, outras que continuam a oferecer aos leitores títulos traduzidos de autores da literatura universal.
O apanhado que vai ser apresentado não pretende ser exaustivo e baseia-se essencialmente nos catálogos da Biblioteca Nacional, uma vez que de todos os livros publicados em Portugal tem que ser entregue um exemplar a esta biblioteca.
Nas primeiras duas décadas do século XX foram publicadas, pelo menos, duas traduções do norueguês: uma de Bjørnstjerne Bjørnson (1832-1910) (Carícias de uma noiva, Companhia Nacional Editora, 1901), autor de que se publicará em 1944, na Minerva, outro título: O Caminho da Felicidade) e de Henrik Ibsen (1828-1906) (A Casa das Bonecas, Guimarães Ed., 1916). Na década de 30 foi publicado um livro de Lars Hansen (1869-1944) Em luta com o Spitzberg (Nunes de Carvalho Ed., 1934). Foi nas décadas de 40 e 50 que foram traduzidos mais títulos da literatura norueguesa, correspondendo a uma política editorial de grande abertura, tendo-se traduzido um número bastante elevado de títulos das mais diferentes línguas. Pelo menos 13 títulos noruegueses foram publicados nestas duas décadas, sobressaindo o nome de Sigrid Undset (1882-1949), Prémio Nobel da Literatura em 1928, (5 títulos: Cristina Lavransdatter (3 volumes, 1945 e 1946, reeditados em 1958, na Portugália), Feliz Idade (Inquérito, 1940), Primavera (Tavares Martins, 1945), Vigdis, a Indomável (Estúdios Cor, 1957), Catarina de Sena (Aster, s/d)). Da década de 40 temos um conto de Alexander Kielland (1849-1906) (Feliz Natal, Inquérito, 1943), um romance de Johan Bojer (1872-1959) (As noites claras, Tavares Martins, 1943) e outro de Sigurd Christiansen (1889-1947) (Dois vivos e um morto, Guimarães Ed., 1940).
Alguns autores noruegueses têm tido uma ampla recepção em Portugal: destaca-se obviamente Henrik Ibsen com, pelo menos, sete títulos, alguns dos quais com diferentes traduções publicadas em livro, em diferentes editoras: João Gabriel Borkman, Casa das Bonecas, Os Espectros, Hedda Gabler, Os Pilares da Comunidade, O Construtor Solness, O Inimigo do Povo. Neste momento estão a ser publicadas Peças escolhidas pela Editora Cotovia, de que foram publicados já 3 volumes com 12 peças (2006, 2008, 2008).
Cabe agora referir as principais traduções de obras de autores noruegueses contemporâneos, cujos livros se encontram, na sua maioria, nas nossas livrarias.
Começo com Jostein Gaarder (1952-), cujo livro O mundo de Sofia já vai na 26ª edição, mas que tem pelo menos mais 12 títulos publicados na Editorial Presença, de que destaco Maya. O Romance da Criação (2001), O Enigma e o Espelho (1997) e O Mistério do Jogo das Paciências (1996). Refira-se também Lars Saabye Christensen (1953-), com 3 títulos (Herman (2004), Beatles (2005), Meio-Irmão (2007) e “O Modelo” (2009), publicados pela Cavalo de Ferro, editora que também publicou em 2003 e 2005 a obra de Jonas Lie (1880-1940): Trold. Histórias dos mares do Norte, dois volumes). De Erik Fosnes Hansen (1965-) temos um romance (Concerto no Fim da Viagem, Presença, 1996), de Linn Ullmann (1966-) publicaram-se dois: Opções (Nova Nórdica, 1985) e Antes de Adormeceres (Teorema, 2000) e de Knut Faldbakken (1941-) o romance A Lua de Mel (Caravela, 1991). Karin Fossum (1954-), conhecida autora de romances policiais, está representada por três títulos: A ilusão de Eva (Presença, 2002), O olhar de um desconhecido (Presença, 2005) e A noiva indiana (Oceanos, 2009). Da jornalista Asne Seierstad (1970-) surge De costas viradas para o mundo (Pedra da Lua, 2000), depois O livreiro de Cabul, um sucesso internacional (em 2004 publicava-se a 5ª edição,) e em 2004 101 dias em Bagdad, ambos na Presença. O dramaturgo Jon Fosse tem, pelo menos, 6 livros no mercado, publicados pela Cotovia, relacionados com peças estreadas entre nós, como Sonho de Outono/ O Nome (2001), A noite canta os seus cantos (2004), Inverno (2005), Lilás (2006), É a Aless (2008), Sou o vento/ Sono/ Homem da Guitarra (2008). O último autor a figurar nesta lista é Dag Solstad (1941-), cujo romance Pudor e Dignidade foi recnetemente publicado pela nova editora portuense Ahab.
Em 2004 as Edições Afrontamento publicaram a antologia de contos nórdicos A luz que vem do Norte, editada por Gonçalo Vilas-Boas. Aí figuram seis contos de autores noruegueses: Ingvar Ambjørnsen, Marianne Fastvold, Lisbet Hiide, Øystein Lønn, Lars Saabye-Christensen e Laila Stien.
Gostaria de terminar esta resenha com a referência ao jornalista Bjørn Vang, que esteve alguns meses em Portugal, para escrever Um estrangeiro em Alfama (2005), “uma narrativa pessoal veiculadora de uma visão da realidade portuguesa muito interessante e pouco comum”, como se lê na contracapa do livro, editado pela Sopa de Letras.
A RECEPÇÃO DE KNUT HAMSUN EM PORTUGAL
A recepção de Knut Hamsun em Portugal resume-se em poucas linhas. Ela dá-se no período de intensa produção tradutológica, nas décadas de 40 e 50. Registo 4 títulos deste período e dois mais recentes.
- O primeiro foi Pão e Amor (Markens Grøde), em versão de César Frias, publicado em 1942, com uma 2ª edição em 1952 (na Parceria António Maria Pereira) e uma terceira em 1953, na Guimarães Editores).
- O segundo título foi Filhos da Época (Børn av tiden), de 1949, traduzido por Eugénio Navarro, para as Edições Minerva,.
- O terceiro título foi Pan, traduzido por César Frias e publicado pela Guimarães Editores, em 1955.
- O quarto título foi Zaqueu e “Polly”, o cozinheiro, com o mesmo tradutor, para a Fomento de Publicações, em 1957 (Colecção Mosaico. Pequena Antologia de Obras Primas).
- O último título que quero referir é o do romance Fome (Sult), publicado EM Outibro de 2008 pela Cavalo de Ferro, inserida numa série de títulos noruegueses, já anteriormente referidos, e também suecos e islandeses, para só referir as línguas nórdicas. O romance foi traduzido por Liliete Martins e tem um útil prefácio de Paul Auster.
Deverá ser a primeira tradução deste título em Portugal. No livro Zaqueu e “Polly”, o cozinheiro são referidas as obras traduzidas em português. Não figura nesse volume de 1957 qualquer referência a Fome em edição portuguesa, somente à brasileira. Nas diferentes bibliotecas que consultei encontrei registos de traduções brasileiras deste romance, nomeadamente da de Carlos Drummond de Andrade. Há também registos de uma tradução espanhola de 1920, outro de uma francesa de 1928, para além de outros referentes a traduções posteriores, mas nenhum indicando uma edição em Portugal.
No catálogo da Porbase figuram 22 registos de Knut Hamsun e no da Biblioteca Nacional 13, incluindo edições em português, francês, espanhol e alemão. Isto mostra que Hamsun não era desconhecido, o que levou as bibliotecas a providenciar a sua aquisição. Como curiosidade refira-se que seis dos registos da Porbase pertencem à Biblioteca do Professor Ferreira de Almeida, a seu tempo professor de História da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Na sua biblioteca encontram-se vários outros títulos de traduções de literatura norueguesa.
Esta breve incursão, ainda que incompleta, permite perceber que a literatura norueguesa em Portugal segue as grandes tendências editoriais europeias. Quando um autor se torna famoso em França ou na Alemanha, ou se recebeu um prémio de renome inernacional, como o Nobel, o Booker Prize, o Pulitzer, o Goncourt, tem mais hipóteses de aparecer nas montras das livrarias portuguesas. É importante realçar que o leitor português tem à sua disposição, ainda que, por vezes, só através das bibliotecas, muitos livros de autores noruegueses, ainda que esta literatura esteja claramente sub-representada.
A leitura é sempre uma forma de diálogo, de alargamento de horizontes, um cruzamento de olhares através dos quais o leitor constrói uma imagem do Outro. Dialogar é conhecer, questionar, ser questionado. Ler é conhecer, mas também sentir. Sendo a obra de ficção a consequência de visões, de preocupações de um autor através da escrita, ler essas obras é confrontar-se com elas, com o Outro e através das linhas que se vão lendo cada um vai-se enriquecendo. Ler Hamsun é uma experiência que vale a pena, para se aproximar de visões da Noruega, mas sobretudo para ter o prazer de ler excelentes livros, que, como quase toda a grande literatura, são perturbadores.
Porto, 4 de Novembro de 2009
Gonçalo Vilas-Boas
Faculdade de Letras da Universidade do Porto